Disco Novo

Quando pensei em fazer esse disco,a idéia era mais uma vez,simplesmente fazer um trabalho novo. Mostrar músicas recentes e também reler algumas coisas de outros compositores que eu gosto e que vinha estudando em casa.
O processo todo levou quase um ano.Não que eu estivesse achando alguma dificuldade para encontrar as canções ou por falta de novidades. Foi exatamente o contrário.Foi pelo excesso de opções e de músicas que foram surgindo ao longo desse tempo.
No meio do caminho aconteceu uma coisa curiosa.
Voltei a ouvir os discos antigos do Tom jobim e do João Gilberto. Coisas como o Wave,o Tide,o Urubú,e também o Amoroso e o disco branco do João. Todos discos de cabeceira.
Fui então me lembrando do meu próprio percurso de compositor,dos meus discos antigos e das minhas maiores influências.Sem querer,fui achando coisas do João Gilberto no You Tube e mergulhando no trabalho dele com uma minúcia que até então nunca havia feito.
Isso me levou de volta ao violão e a vontade de estudar melhor o movimento rítimico do violão do João- coisa que eu nunca havia feito de verdade.
Isso me abriu uma janela enorme e me deu vontade de “Joãogilbertiar” ainda mais tudo o que eu tocava.
Nesse meio tempo fui fazendo novas canções.A maioria com letra e música minhas e algumas com meu parceiro mais constante,Ronaldo Bastos.
Ao mesmo tempo,estava escrevendo a trilha original do filme “ Rio eu te amo “ ,e fiz várias músicas que não foram usadas no filme. De repente,vi que tinha um repertório muito maior do que eu precisava.
Fui enviando algumas pro meu produtor Moogie Canazio,um craque e um profissional com quem eu já queria trabalhar faz tempo.
Chegamos a algumas decisões com relação ao repertório,e  a principal era a de que deveríamos gravar a maioria do material inédito e original que eu tinha.

Chamei então os músicos que tocam comigo há algum tempo e começamos gravando dois temas instrumentais que eu tinha escrito pro filme e que não foram utilizados.
O resultado foi maravilhoso,não só pela performance deles como pelo som inacreditável tirado pelo Moogie no estúdio.
A partir daí,continuamos,utilizando um processo que uso na maioria dos meus discos. Gravar voz e violão juntos. Ao mesmo tempo. Sem dobras nem overdubs.
Sempre achei que isso soa mais orgânico e facilita a minha performance e o desenvolvimento do que vem a seguir.
Mais uma vez,o som tirado pelo Moogie foi alguma coisa fora do normal,o que me inspirou ainda mais na hora da gravação.
Depois,foi fácil pensar no que viria.
Eu queria a orquestra,e prá isso,mais uma vez pensei no meu querido maestro e arranjador Eduardo Souto Neto,que me acompanha há tantos discos.
Nos sentamos prá ouvir o repertório como fazemos desde sempre,e eu fui passando as indicações das formações que eu queria e do tipo de arranjo que eu imaginava para cada canção.
O resultado das primeiras músicas gravadas foi tão bom que me trouxe lágrimas aos olhos no estúdio.
Segui chamando os outros instrumentistas que eu imaginei e então o Moogie deu uma idéia inédita.Uma coisa que eu nunca havia feito nos meus 14 discos anteriores e inimaginável pra’ mim; eu gravaria a maioria dos baixos nas músicas.
Uma coisa que `a princípio me deixou reticente e desconfiado,se revelou um grande acerto do Moogie. É prá isso que servem os produtores!

A mágica estava ali.Na fusão do meu violão e voz com as linhas de baixo que eu inventei ouvindo o que eu mesmo tinha gravado.Estava pronto.Orgânico. Os graves,a dinâmica que faltava pra sonoridade do album.
Tenho mais uma vez,um disco com a atmosfera que eu gosto. Com muitas imagens sonoras como se fossem imagens que se pode perceber através da própria visão.
Como num filme. Como numa trilha sonora que a gente ouve quando anda na rua ou viaja por uma longa estrada.
Esse disco é assim. As músicas do filme da minha vida nos últimos anos. Não um filme de algum outro diretor,com roteiristas e atores convidados.
Aqui o roteirista e o ator principal sou eu mesmo.
Com tudo o que vivi nos últimos tempos desde o meu último disco. Minhas alegrias,minhas tristezas,minha inspiração e minha falta dela.
O diretor é o Moogie e o resultado pra mim é muito feliz.
É a minha caminhada pela minha cidade e pelas cidades que tenho percorrido. Pelas minhas estradas da alma e por toda a beleza que a vida tem mostrado prá mim.Passa também pelas dúvidas,pelas dores e pela melancolia.
É o que tem sido.O que eu sinto. O meu movimento. O meu estar no mundo.
As canções, a beleza e sobretudo a constatação cada vez maior da grandeza do amor,que é tudo o que me move. Hoje e sempre.